
Cometi suicídio. Depois de preparar a seringa com uma quantidade suficiente de heroína e cocaína, juntos com alguns restos triturados de insetos para uma morte rápida, injetei a dose com tanta rapidez que chegou a fazer um calombo no meu braço. Em menos de 5 minutos começei a ter uma convulsão, minha cabeça se sacudia violentamente enquanto eu espumava pela boca, saliva, muco, pus, sangue ou tudo junto, numa química indescritível da nojenta excreção daquilo que me envenenava. Enquanto meu corpo ia parando, minha visão ficou turva, desnorteada, daltônica, quando vi ao lado da minha cabeça, eu estava deitado sobre meu próprio vômito, junto com outros fluidos, bílis eu acho, e um pedaço de mim boiava naquela poça. Quando parei com minha cara naquela mistura, já não sentia mais cheiro de nada. Um gemido cavernoso e continuo (algo como aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa) saiu de minha boca durante o próximo minuto até eu morrer.
O difícil foi conseguir levantar da cama depois de um sonho desse. Juro que até meu braço coçou, como se eu ainda sentisse uma seringa ali...
Isso desencadeou no fato de nascer uma idéia, um insight. Claro que não tem nada a ver com seringas. Falo da destruição de alguns caminhos, desconstrução de alguns alicerces, e de parte de minha personalidade perante (a falta de) os resultados.
Li um texto sobre uma afirmação perfeita: destruir ou desconstruir.

Sinceramente, penso que são pouquíssimas as relações na vida que precisam ser realmente destruídas, exterminadas. Eu oscilei entre a destruição e a desconstrução em vários aspectos. Eu sei que existem situações horrendas. Mas, mesmo que você viva, eu já vivi várias, a pior relação em sua existência, ainda assim, acredito que poderemos encontrar juntos algum aspecto dela que tenha servido de aprendizado, e que deveria ser bem guardado como experiência de vida. É praticamente impossível você viver um relacionamento tempestuoso na vida, um momento de sofrimento e dor, de angústia e tristeza, sem que ao final você não colha aprendizado e consequentemente crescimento. E isso eu falo de todos os tipos de relacionamentos que temos ao longo da vida, profissionais, pessoais, sociais, afetivos, familiares, etc. A diferença é sutil, mas as consequências são ainda piores.
Quando nós destruimos, é praticamente uma explosão em cadeia ou uma implosão. Você fragmenta, desintegra, parte, despedaça, arrebenta, nada fica inteiro, nada é aproveitado. Se você age assim no fim de um relacionamento você gera rancor, amargura, ódio. Sentimentos destrutivos que geram repulsa. Cria uma nuvem de poeiras nos olhos, restos de demolição, que lhe impede de enxergar as coisas boas que existiram. Ou quando as enxerga, tenta de todas as formas negá-las como tendo sido boas. Passa a dizer que foram falsas, que foram perda de tempo. O resultado final é conhecido: dor, ódio, raiva etc.
Por outro lado, quando você desconstrói, você nem explode, nem implode, nem derruba, nem demole. Você subtrai, tentando ao máximo preservar a integridade dos materiais para reaproveitá-los. Ecologicamente falando, vc recicla aquele material que vc achava subaproveitado, para que seja renovado e reutilizado nos longínquos relacionamentos que nós teremos ao longo da vida.
Claro que nem sempre isso parte de vc. Algumas vezes, mesmo que tenhamos uma iniciativa para desconstruir, usando a principal ferramenta, o diálogo, nem todo mundo está aberto a essa opção.
Muitas coisas eu desconstrui ao longo do tempo, muitas me abriram novas oportunidades, outras me fecharam a porta na cara e por ultimo tem aqueles aspectos que de nada me acrescentaram e só veio a me prejudicar ainda mais, ou pior, quantas novas oportunidades eu poderia ter aproveitado se houvesse uma simples mudança de atitude, de ação, de humor, de ponto de vista, de diálogo, de paciência. Obviamente mudanças tão significativas não acontecem da noite pro dia. Vou acordar e hoje serei rico! Elas ocorrem em singelas parcelas homeopáticas, dosadas a cada minuto, a cada hora, muitas vezes imperceptível aos nosso próprios olhos. Mas para que elas aconteçam na dosagem, e na frequencia constante, eu resolvi limpar o terreno com uma auto-destruição. Chega de passar o resto do tempo abatido, fragilizado, doente, sem fôlego. Essa foi minha opção, minha escolha e de mais ninguém. Nossa natureza é imutável, mas nossa personalidade muda constantemente ao longo da vida.

Chama-se Evolução.
Na mesma noite em que me suicidei, tive outro sonho. Variação do mesmo tema sem sair do tom.
Estava atracado num ancoradouro depois de passar por mais uma tempestade. Sim eu não estava em um barco, eu era O barco. E vivia numa tempestade tão grande quanto um tsunami, nunca diminuia, nunca passava, nunca vinha a verdadeira bonança. O tempo estava fechado, o vento fortíssimo, o mar estava arredio, o casco solavancava no ancoradouro por causa das ondas. A cada corda que eu arrancava, a cada nó que eu desfazia, era uma idéia que surgia na cabeça. Era menos uma amarra. Mais próximo eu estava de zarpar, talvez em mais uma nova tempestade. Porém isso nunca aconteceu.

Eu não estava simplesmente ancorado, eu estava ENCALHADO. Como um barco fica encalhado com uma tempestade dessas? Todas as amarras foram soltas e flamejavam com o vento, rebatendo todas elas no casco como se fossem chicotes. (acredito que Jung teria adorado me ouvir contar essa história...) Então de súbito desespero, raiva, ódio, impaciencia e praticidade, resolvi "abandonar o barco", porque aquele invólucro estava sendo inútil: INCINEREI-O por completo! Com a ventania, o fogo se arrastou pelo ancoradouro, pela costa, pela mata, a coluna de fogo tinha quilômetros de altura.
Acordei encharcado de suor, mesmo com o ventilador ligado. E entendi a mensagem...

Morra e Mude.
Troque suas folhas e mantenha sua raízes.Aproveito para divulgar a mais nova música do Lenine,
É o que me interessa. Baixem Aqui.Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Por trás do seu sossego, atraso o meu relógio
Acalmo a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa